Castelo Mourisco da FIOCRUZ

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Panorama do Castelo Mourisco. Foto retirada do site Wikipédia. Autoria de Econt.

Hoje vou falar sobre o Castelo Mourisco da FIOCRUZ – Fundação Oswaldo Cruz – que foi uma surpresa para mim descobrir que ele era uma reminiscência Ibérica. Por residir próximo a ele sempre o achei majestoso, porém não conhecia sua história e nunca o havia visitado. Quando fui pesquisar algumas construções para a realização do trabalho me deparei com a informação de que ele era inspirado na época do domínio muçulmano na Península Ibérica, e então resolvi conhecer um pouco melhor a sua história.

Vamos a ele…

 O Castelo Mourisco é um edifício que faz parte do Complexo do Instituto Oswaldo Cruz em Manguinhos, na cidade do Rio de Janeiro. Ele é a sede desse Complexo que é uma fundação de pesquisa científica. Foi construída em estilo Neomourisco devido ao desejo de seu fundador, Oswaldo Cruz, que se encantou com esse estilo durante uma de suas viagens a Europa.

Sua inspiração foi o Mourisco, também chamado de Mudejár, característico dos hispano-muçulmanos após a reconquista. A arte islâmica que foi levada à Espanha pelos muçulmanos era rica em tradições e ornamentações geométricas, essa manifestação artística foi considerada a maior da sociedade medieval espanhola e se expandiu durante a baixa Idade Média. Um exemplo está no Palácio de La Alhambra, localizado na cidade de Granada, fundada em 756 pelos mouros na região de Andaluzia, na Espanha. Foi a inspiração central e razão do surgimento do termo Alhambrismo para designar a retomada do estilo, agora como neomourisco, no século XVIII.

No Brasil esse estilo chega a meados do século XIX. O Castelo Mourisco é a única edificação civil ainda existente no Rio de Janeiro e por ser considerado um dos raros exemplos neomouriscos remanescentes foi tombado em 1981 pelo Instituto do patrimônio Artístico e Histórico Nacional (IPHAN).

Esse edifício, também chamado Pavilhão Mourisco, foi construído no início do século XX, pelo engenheiro-arquiteto português Luiz de Moraes Júnior, a partir de um croqui desenhado por Oswaldo Cruz após uma de suas viagens para a Europa. O arquiteto foi responsável por traduzir o desejo de Oswaldo que era recriar a linguagem mourisca da península Ibérica e prestar uma homenagem à importância da medicina árabe.

Inicialmente o Pavilhão abrigava bibliotecas, museu e laboratórios. Posteriormente, com a expansão do Complexo, ele passou a abrigar a presidência e seus órgãos, a direção do Instituto, o Salão de Obras Raras da Biblioteca de Manguinhos, a Coleção Entomológica, a Sala Oswaldo Cruz e outros espaços museológicos.

Karla Tauil Foto wikipedia
Castelo Mourisco. Foto retirada do site da Wikipédia. Autoria de Karla Tauil.

O Castelo possui sete pavimentos e seu elevador é o mais antigo em funcionamento na cidade do Rio. Suas varandas possuem azulejos e mosaicos, importados da França e de Portugal, que lembram tapetes e passadeiras árabes. Suas luminárias são de bronze, e nas paredes encontram-se arabescos tipicamente islâmicos. Por todo o edifício é possível observar padrões geométricos na decoração, aspecto tipicamente islâmico.

A Biblioteca do Castelo que guarda o Salão de Obras Raras fica no terceiro pavimento e lá estão obras que se estendem dos séculos XVII até o XX. Entre documentos de todas as áreas do saber se destacam os voltados às ciências biológicas, medicina e ciências naturais. Alguns exemplos são o primeiro Tratado de História Natural do Brasil de 1648 e a tese de Oswaldo Cruz. A Biblioteca é aberta a comunidade acadêmica bastando preencher um formulário para consulta, devido à fragilidade das obras empréstimos não são permitidos.

Renato da Costa Gama mostra em seu trabalho um artigo retirado da Revista Cosmopolita, publicada em 1913, que mostra como o Instituto era visto na época: uma gigantesca obra-prima da arte e da ciência e que estava bem guardada do alcance dos meros mortais. Essa visão tinha relação com o fato do edifício principal, o Castelo Mourisco, não permitir na época o acesso da população em geral, mas esse isolamento era devido ao receio do manejo de material biomédico provocar algum tipo de contágio na população. Essa visão, com a evolução da medicina, foi aos poucos superada, e então o prédio foi tornado acessível a todos.

O Instituto, imponente e requintado, sofreu com as degradações do tempo e por isso foram feitos trabalhos de conservação e restauração do conjunto arquitetônico, especialmente do Castelo Mourisco. Este devido à localização no alto de uma colina está exposto a ação dos ventos e chuvas ácidas, além de variações constantes de temperatura o que favorece o desgaste mais rápido de sua construção. Com esse processo de restauração que foi feito pelo Departamento do Patrimônio Histórico, o Castelo passou a ostentar, desde 1994, uma nova iluminação, concebida por Ney Matogrosso.

Embora saibamos de algumas das intenções de Oswaldo Cruz quando resolveu basear a arquitetura do Pavilhão no estilo Mourisco, é difícil dizer se foram apenas o deslumbre por um estilo e a vontade de homenagem que o induziu a isso. Porém, o fato é que essa construção representa não apenas um grande incentivo e evolução da pesquisa científica brasileira, mas também uma forma de compreensão e divulgação da influência histórica hispano-muçulmana no Brasil, uma das últimas que ainda resistem, e que também serve de resgate de parte da história.

Obs.: Para informações sobre visitas acesse o site da instituição em: http://www.coc.fiocruz.br/. Mais fotos do Castelo e seu interior podem ser vistas em: http://www.coc.fiocruz.br/index.php/pavilhao-mourisco#.V59gP_krLIU

 

BIBLIOGRAFIA

COSTA, Renato da Gama-Rosa, “Arquitetura Neo-mourisca no Rio de Janeiro (1865-1928)”. In: COSTA, Renato da Gama-Rosa, Caminhos da Arquitetura em Manguinhos, FIOCRUZ, Casa Oswaldo Cruz, FAPERJ, Rio de Janeiro. 2003. 101-111p.

____. “A meca da ciência”. Revista de História, 2007.

FRANQUEIRA, Márcia Lopes Moraes, “A restauração do ‘pavilhão Mourisco’”, In: COSTA, Renato da Gama-Rosa, Caminhos da Arquitetura em Manguinhos, FIOCRUZ, Casa Oswaldo Cruz, FAPERJ, Rio de Janeiro. 2003. 121-127p.

HARRIS, Ana Lúcia N.C. & MONASTÉRIO, Clélia Maria C.T. “O Pavilhão Mourisco da Fiocruz no Rio de Janeiro – Aspectos históricos, levantamento fotográfico e catálogo da arte geométrica aplicada na arquitetura”. Revista Eletrônica 19&20, Rio de Janeiro, Vol. V, nº 3. jul. 2010. Disponível em: < http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/fiocruz_mourisco.html >. Acesso em: Nov. 2015.

MUSEU DA VIDA, “Pavilhão Mourisco”. Jan. de 2003. Disponível em: http://www.museudavida.fiocruz.br/cgi/cgilua.exe/sys/start.htm?infoid=60&sid=214 > Acesso em: Nov. 2015.

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Real Gabinete Português de Leitura

Foto do Acervo do IMS.
Marc Ferrez. Real Gabinete Português de Leitura, na rua Luís de Camões. À direita os fundos da Escola Politécnica, atual IFCS/UFRJ (1887).

A breve pesquisa que vou apresentar nos próximos dois posts foi fruto de um trabalho acadêmico realizado no segundo semestre de 2015 (quando eu estava no 2º período), para a matéria de História Ibérica. Para a sua realização deveríamos destacar duas construções na cidade do Rio de Janeiro cuja inspiração arquitetônica fosse derivada da Península Ibérica, fazer uma pesquisa bibliográfica, uma análise do seu contexto de construção, estilo, etc. e por fim, redigir um texto descritivo e crítico.

As construções que eu escolhi foram o Real Gabinete Português de Leitura, de estilo neomanuelino bem típico português, que eu já havia visitado em outras ocasiões e o Castelo da Fiocruz, em estilo mourisco característico do período de dominação dos mouros na Península Ibérica, o qual eu nunca havia visitado, muito embora o veja todos os dias quando passo na Avenida Brasil…

No texto foram destacados diversos aspectos dessas construções como estilo arquitetônico, locais onde se encontram, data de construção, quem as construiu e etc. Para isso fiz uma pesquisa de campo para conhecer os ambientes e pesquisar uma sucinta bibliografia sobre sua história.

Vou começar falando sobre o Real Gabinete…

O Real Gabinete Português de Leitura foi fundado em 1837 por imigrantes portugueses que residiam na cidade do Rio de Janeiro. Inicialmente era uma associação que tinha como função difundir cultura entre seus membros, através de uma biblioteca, cursos, exposições e etc. Porém seu objetivo real e a razão de sua criação era afirmar o orgulho da nacionalidade portuguesa.

Devido a instabilidades políticas e econômicas em Portugal houve, nesse período, um grande fluxo de imigrantes portugueses se estabelecendo no Brasil, em particular no Rio de Janeiro, e seus motivos iam desde a busca por melhores condições de vida até as fugas de uma realidade política desfavorecida. Daí o desejo de exaltação de um passado português glorioso, que valorizasse suas conquistas, seus heróis e que preservasse sua memória nacionalista. Regina Anacleto, em A arquitetura neomanuelina e a sua repercussão no Brasil, diz que “Esse grupo de homens uniu-se para fundar um centro associativo onde se pudesse isolar na doce recordação das coisas de sua pátria (…)”.

Passou por diversos endereços até a construção de sua sede em 1887, na Praça Tiradentes, no centro da cidade do Rio, mais precisamente na Rua Luís de Camões. A escolha desse local não foi de forma alguma aleatória, ela representou uma necessidade dos membros de afirmarem sua identidade e para isso nada melhor que o estabelecimento do Gabinete no coração da cidade, para que este representasse a grandeza de Portugal e a exaltação da “pátria colonizadora”.

Em sua inauguração estavam presentes importantes nomes como a Princesa Isabel e o Conde D’ Eu, Ramalho Ortigão, Adolfo Varnhagem e foi feito um longo discurso por Joaquim Nabuco, influente personagem relacionado às letras e a questão abolicionista. O Real Gabinete serviu de berço para a maioria das associações portuguesas que se desenvolveram no Rio posteriormente, como a Sociedade Portuguesa de Beneficência (1840), O Grêmio Literário Português (1860), entre outros.

O arquiteto responsável pela construção do edifício foi Raphael da Silva e Castro e sua inspiração foi o Manuelino, um estilo muito representativo em Portugal, que estava relacionado aos descobrimentos e era um símbolo das glórias da nação. Desenvolveu então o projeto do gabinete em neomanuelino, uma releitura do português que atendia perfeitamente aos anseios de seus fundadores.

Essa arquitetura assumia um valor patriótico para a grande comunidade de portugueses que aqui residiam, tanto da elite quanto das classes mais baixas. Porém essa questão da identidade tinha também um lado excludente, pois deixava de fora todos aqueles que não correspondessem a ideia de identidade que estava sendo criada: a do imigrante nacionalista.

O prédio tem a fachada com aberturas largas e artísticas que foram inspiradas no Mosteiro dos Jerônimos, em Portugal e possui quatro estátuas dos mais notáveis heróis portugueses: Luís de Camões, Vasco da Gama, D. Infante Henrique e Pedro Álvares Cabral. Na decoração interior existem diversas pinturas e estatuária que representa a historicidade de seus fundadores. No prédio encontra-se também o ferro associado a pedra, uma mistura característica desse estilo.

Para Regina Anacleto a utilização do Neomanuelino no Brasil e suas relações com Portugal se explica pelas motivações nacionalistas, culturais e políticas que aqui se encontram. Além disso, a valorização da língua tem destaque especial num gabinete de leitura e daí o culto a Camões. Antônio Tavares concorda com ela ao dizer que a escolha por esse estilo específico estava a muito definida, pois deveria servir de legado as novas gerações e deixar na memória a história de Portugal até o descobrimento, e depois o seguimento com a história do Brasil.

A biblioteca sempre foi o destaque do Real Gabinete e seu acervo foi composto por doações e compra de livros ao longo dos anos, totalizando atualmente um acervo informatizado de mais de 350 mil volumes. Tem prioridade as obras raras e os autores portugueses e é a biblioteca com maior número de obras de autores portugueses fora de Portugal. O Gabinete recebe um exemplar de cada nova obra publicada em Portugal, devido ao “depósito legal”, um programa que garante a conservação do patrimônio cultural.

O Gabinete conservava semelhanças com outros, de países europeus, mas se diferenciava por estar associado a uma agremiação de origem étnica, por emprestar livros aos seus associados e os disponibilizar ao público em geral. Em 1900 ele se tornou uma biblioteca pública onde qualquer um podia ter acesso ao seu acervo para consultas e pesquisas.

Nesses 178 anos a manutenção, atualização e crescimento do acervo tem sido constante, e é um forte instrumento de difusão cultural. A Biblioteca é aberta ao público que pode realizar pesquisas dentro do Gabinete, para os sócios é permitida também a retirada de livros para consulta em domicílio. Além disso, através de uma mensalidade eles podem participar de cursos e atividades do Centro de Estudos e do Centro Cultural e votar nas assembleias. O Centro de estudos foi criado para estudo, investigação e divulgação cultural, onde são realizados cursos de extensão, especialização, divulgação da cultura brasileira e da língua portuguesa.

Na próxima semana vou falar sobre o Castelo Mourisco da Fiocruz, até lá!!!

Obs.1: Atualmente o Real Gabinete passa por um processo de restauração, que na época da pesquisa (final de 2015) já havia sido iniciado.

Obs.2: O Gabinete fica na Rua Luis de Camões, 30. Praça Tiradentes, Centro – RJ. Seu horário de funcionamento é de Seg. a Sex. de 09 as 18hrs. Maiores informações em http://www.realgabinete.com.br/portalWeb/.

Obs.3: No site http://www.orealemrevista.com.br/Exposi%C3%A7%C3%B5es/O-Real-em-Revista-3 é possível ver um vídeo de aprox. 6 minutos sobre o gabinete onde contém informações interessantes além de diversas imagens.

Bibliografia:

ANACLETO, Regina “A arquitetura neo-manuelina e a sua repercussão no Brasil”. In: “Relaciones Artísticas entre la Península Ibérica y Amércia”. Actas del V Simposio Hispano-Portugués de Historia del arte (11 – 13 Mayo 1989), Valladolid, 1990.

BASTOS, Tatiana Quintela de Azeredo. “Gabinete Português de Leitura: construção de uma identidade portuguesa”. Anais do XXIII Simpósio Nacional de História, ANPUH, Londrina, 2005.

COSTA, A. Gomes da, “Catedral da cultura portuguesa”. Site do Real Gabinete Português de Leitura.

TAVARES, Antônio Rodrigues “Fundamentos e Atualidades do Real Gabinete Português de Leitura”. Edição Comemorativa do 140º aniversário de fundação, publicação do Real Gabinete Português de Leitura do Rio de Janeiro, 1977.

 

O Morro do Castelo – Parte Final

Foto tirada por Mayara Saldanha
KESSEL, Carlos. Tesouros do Morro do Castelo: Mistério e história nos subterrâneos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

 

E hoje chegamos a parte final do Morro do Castelo, falando sobre os tesouros dos jesuítas…

Esta última parte é também uma dica de leitura do livro de Carlos Kessel, “Tesouros do Morro do Castelo: mistério e história nos subterrâneos do Rio de Janeiro”, onde ele nos conta ter encontrado no IHGB (Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro) documentos do fim do século XIX referentes a um pedido de Nominato José de Assis, um advogado mineiro, que solicitava ao marquês de Olinda que o ajudasse, intervindo junto ao Governo Imperial para que lhe fosse dada uma concessão para escavar o Morro do Castelo em busca dos tesouros dos jesuítas.

Através desse pedido inusitado temos a dimensão do alcance da crença, que era difundida na época, tanto entre a população da elite quanto das camadas mais baixas da sociedade, de que os jesuítas haviam escondido um tesouro nas galerias e câmaras subterrâneas do Morro, quando de sua expulsão do Brasil em 1759. Esta era ainda reforçada pelo fato da sede administrativa, a igreja e o colégio dos padres serem no Castelo, Kessel diz que Os tesouros do morro do Castelo passaram da categoria de símbolos da opulência jesuítica a objetos de cobiça da Coroa portuguesa e a mito dourado que confundia com as origens do próprio Rio de Janeiro…”.

O mistério tomou força com o início das escavações do morro em 1905, organizadas pelo Prefeito Pereira Passos. Na abertura da Avenida Central (atual Rio Branco) foi encontrada uma das galerias subterrâneas o que reforçou mais os boatos sobre o tal tesouro, dando origem inclusive a uma publicação seriada de crônicas no jornal “Correio da Manhã” que mistura história, fantasia e romance. Escritas por Lima Barreto elas se transformam no livro “O subterrâneo do Morro do Castelo”, em 1997.

A especulação do tesouro por parte de alguns membros do governo gerou inclusive uma crítica de Monteiro Lobato …o verdadeiro tesouro oculto em suas entranhas não é a imagem de ouro maciço de Santo Inácio, e sim o panamá do arrasamento. Os homens de hoje são negocistas sem alma. Querem dinheiro. Para obtê-lo venderão tudo, venderiam até a alma se a tivessem. Como pode ele, pois, resistir a maré, se suas credenciais – velhice, beleza, pitoresco, historicidade – não são valores de cotação na bolsa?”.

Com a demolição do Castelo pouca coisa foi achada nos seus subterrâneos, mas com certeza não o suntuoso tesouro previsto nos boatos, mas o autor não esgota a possibilidade de algo ter existido já que a exploração não foi feita de modo a se buscar preservar o que havia abaixo. Kessel resume bem a destruição do morro quando diz que:

Para nós é relevante notar que os poderes públicos não haviam tomado qualquer iniciativa para preservar a memória do Castelo, tendo relegado ao abandono não só as construções, mas também o que ainda se encontrava sob a terra. Compreende-se: o pensar e o fazer governamental dos anos que se seguiram a Pereira Passos ainda estavam definidos pela mentalidade higienista, e o morro de há muito fora classificado como um dos obstáculos a vencer na busca do saneamento e do embelezamento do Rio de Janeiro”.

E assim chegamos ao fim dessa série de textos sobre o Morro do Castelo. Espero que todos tenham gostado e aprendido um pouco sobre esse importante espaço do Rio de Janeiro, que mesmo não mais existindo fisicamente resiste ainda na memória da cidade. Até a próxima!!!

Referências:

AZEVEDO, Cláudia Cristina Andrade de; SILVA, Maria Fátima de Souza. Morro do Castelo “Um Lugar de Memória” na cidade do Rio de Janeiro. Disponível em: ojs.fe.unicamp.br/ged/FEH/article/download/5449/4357

BARRETO, Lima. O subterrâneo do Morro do Castelo. Correio da Manhã – edições de 28-29/4/1905, 2-10/5/1905, 12/5/1905, 14-15/5/1905, 19-21/5/1905, 23-28/5/1905, 30/5/1905, 1/6/1905, 3/6/1905. Disponível em: https://www.algosobre.com.br/downloads/livros-obras-literarias-pdf/573-lima-barreto-o-subterraneo-do-morro-castelo/file.html

EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu tempo. Edições do Senado Federal, Vol. 1. Brasília, 2003. 

GÉRSON, Brasil. História das Ruas do Rio.

KESSEL, Carlos. A Vitrine e o Espelho: o Rio de Janeiro de Carlos Sampaio. Rio de Janeiro, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 2001.

KESSEL, Carlos. Tesouros do Morro do Castelo: Mistério e história nos subterrâneos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2008.

MENEZ, Alexsandro R. Civilização versus barbárie: a destruição do Morro do Castelo no Rio de Janeiro (1905-1922). Revista Historiador, nº 06, Ano 06, Janeiro de 2014. Disponível em: http://www.historialivre.com/revistahistoriador

PAIXÃO. Cláudia Míriam Quelhas. O Rio de Janeiro e o Morro do Castelo: populares, estratégias de vida e hierarquias sociais (1904-1922). Dissertação de Mestrado em História, Niterói: UFF, 2008.

PAULA, Eurípedes Simões de. A Cidade e a História. Anais do VII Simpósio Nacional dos Professores Universitários de História, São Paulo: 1974.


 

O Morro do Castelo – Parte 2

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Igreja de São Sebastião do Morro do Castelo – MALTA, Augusto. [Igreja do Morro do Castelo]: [interior]. [S.l.: s.n.]. 1 foto, cópia fotográfica de gelatina e prata, p&b, 22,9 x 17 cm em papel: 23,3 x 17,3 cm. Acervo da Biblioteca Nacional.

Continuando nosso texto sobre o Morro do Castelo…

A virada do século e o início do novo regime republicano traz consigo a necessidade de modernizar a cidade e nisso prevaleceu o conhecimento de engenheiros, médicos e sanitaristas que visavam o embelezamento da urbe e a resolução de seus problemas de insalubridade. Além disso, as reformas urbanas tinham entre seus objetivos o de transformar o centro da cidade num espaço comercial, retirando dele seu caráter residencial.

Um outro fator importante que serviu de argumento para aqueles a favor do desmonte foi a questão da imagem internacional do Brasil já que dois importantes eventos iriam acontecer no Rio de Janeiro, o Centenário da Independência em 1922, o que também fez surgir a necessidade de espaço no centro para abrigar as exposições, e a visita do rei Alberto da Bélgica e de sua rainha.

Como podemos perceber tanto as razões dadas pela elite e pelos governantes para a destruição do Morro quanto as defendidas por aqueles que eram contra essa atitude passam pelas questões do movimento sanitarista, reorganização urbana, controle social e embelezamento para inserção da cidade na modernidade. Mas o que todos eles, contrários ou favoráveis, tem em comum é a pressuposição de que o Castelo não podia permanecer como estava, sendo um símbolo de atraso e de um passado colonial que deveria ser esquecido. Para Menez “havia um contraste violento entre a civilização (o homem branco descendente do europeu) e a barbárie (negro ou indígena) representada pela imagem do Morro do Castelo”.

Durante essa discussão em nenhum momento foi pensado nas consequências que seriam geradas para a população residente do morro. Por se tratar de pessoas das camadas populares a maioria não era proprietária de nenhum imóvel, sendo então retiradas sem receber nenhuma indenização do governo. Moravam ali em habitações quase sempre coletivas onde pagavam um valor baixo e estavam próximos ao seu local de trabalho no centro da cidade (a grande parte dos habitantes do Castelo trabalhavam como domésticas, carregadores, vendedores, e outras serviços informais).

Um dos poucos autores a tratar desse contexto social foi Lima Barreto, que criticava a falta de posicionamento das autoridades frente a todos esses problemas, ou a sua total desconsideração. Os moradores do Castelo por não acreditarem que o morro seria mesmo destruído não conseguiram se organizar a tempo para deter essa ação, seus protestos e reclamações foram ignorados pelo prefeito, que considerava suas reivindicações irrelevantes.

O projeto das reformas, que ia muito além da demolição do morro, previa ainda a separação da cidade, ficando o centro destinado ao uso comercial e administrativo, a zona sul as classes mais altas e os subúrbios as classes inferiores. Porém, forçar a população desfavorecida a ir para lugares distantes, com um sistema de transporte precário, sem infraestrutura adequada, entre outros problemas não adiantou muito, os castelenses por exemplo, apenas migraram do Castelo para outros morros como a Providência ou Santa Teresa.

Menez diz que a destruição do Morro passou por dois períodos principais: o primeiro em 1904 na gestão Pereira Passos, quando foi aberta a Avenida Central e demolida uma parte do morro, e a segunda em 1921 na gestão Carlos Sampaio, esta definitiva. O primeiro período com Passos coincidiu com o arrasamento de alguns cortiços do centro também realizados nesse período, mas por questões econômicas não chegou a fim. A sua destruição total foi se dar na década de 1920, sendo iniciada pelo trabalho de máquinas escavadeiras logo foi introduzido um novo sistema de mangueiras hidráulicas, vistas em ação numa visita de Sampaio à São Paulo que as achou mais rápidas e de menor custo. O prefeito tinha pressa em arrasar o Castelo.

Em 1922 ele terminou de ser demolido, mais de quatro mil pessoas foram desalojadas e a terra tirada foi usada para os aterros das áreas próximas, que abrigaram as exposições. Do morro do Castelo resta hoje apenas o início da antiga ladeira da Misericórdia no largo de mesmo nome. Com a sua derrubada uma importante parte da história da cidade, ligação entre o passado e o presente foi perdida, mas resta ainda a sua memória em fotos, documentos, contos e crônicas de que foi cenário, e esta sim será eterna.

Ladeira da Misericordia
Ladeira da Misericórdia por Halley Pacheco de Oliveira – Obra do próprio, CC BY-SA 3.0, https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=24696113Ladeira da Misericordia

Aqui finaliza a parte da história do Morro do Castelo, amanhã falarei um pouco sobre o mistério dos tesouros dos jesuítas que despertou a curiosidade de muitos cariocas por cerca de dois séculos!!! Espero que tenham gostado, até mais.

Obs.: Qualquer semelhança com as atuais reformas urbanas que acontecem no Rio de Janeiro por questão dos jogos olímpicos não é mera coincidência. Vale a reflexão sobre a quem elas interessam, sobre a imagem de Brasil que os governantes atuais querem passar e sobre a exclusão dos moradores de certas áreas da cidade, consideradas como nobres (vide a racionalização das linhas de ônibus). Além da precarização de serviços básicos como saúde e educação em favor de obras que após os jogos não trarão nenhum benefício a população em geral, a expulsão de pessoas de alguns locais de interesse econômico para o governo, entre outras ações que podem ser aqui destacadas. Essa observação é uma opinião pessoal baseada na reflexão diária que venho fazendo como moradora da cidade, deixo-a aberta para que cada um de vocês reflita também.

O Morro do Castelo

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MALTA, Augusto. [Morro do Castelo]: C. da Floresta. [S.l.: s.n.]. 1 foto, cópia fotográfica de gelatina e prata, p&b, 15,4 x 21,61 cm. Acervo da Biblioteca Nacional.

No texto de hoje vou falar um pouco sobre o Morro do Castelo, um ícone que faz parte da memória da cidade do Rio de Janeiro mesmo após o seu trágico destino nas reformas do início do século XX: a demolição. Antes de começar quero dizer que vou dividir esse texto em três partes pra não ficar tão extensa a leitura, na primeira e segunda vou contar um pouco da história e na terceira vou falar do mistério dos tesouros do Castelo.

A história começa em 1567 quando Mem de Sá, após derrotar os franceses, decide transferir o núcleo urbano instalado na Urca (Morro Cara de Cão) para o então chamado Morro do Descanso e fundar novamente a cidade em 20 de janeiro, dia de São Sebastião. Essa mudança se deu devido a inúmeros fatores: o morro apresentava facilidades em questão de proteção, pois permitia maior visibilidade da baía, era mais propício ao desenvolvimento de uma cidade, tinha um ambiente mais ameno onde os ventos circulavam melhor e fazia menos calor.

Uma fortaleza foi então construída e a sua semelhança com um castelo fez surgir o novo nome: Morro do Castelo. As primeiras construções da cidade foram erguidas ali, como a própria fortificação, a casa do governador, a casa da câmara, o colégio e a igreja dos jesuítas e a Igreja de São Sebastião do Castelo (onde se encontravam os restos mortais de Estácio de Sá que com a destruição do Morro foi transferida para a Tijuca, junto com suas relíquias), abriu-se ainda a ladeira da Misericórdia para servir de acesso e possibilitar a expansão da cidade para as áreas planas. No século XVII o topo e a base do morro do Castelo já estavam densamente edificados.

Em 1760 ocorre a expulsão dos jesuítas o que irá dar margem a formação de uma das maiores crenças que permearam o imaginário popular carioca até o desmonte do Castelo, a existência de um tesouro ali escondido pelos padres, que como foram mandados de volta a Portugal as pressas não tiveram tempo de levar. Vou falar melhor disso na terceira parte do texto.

Com o desenvolvimento da cidade para as áreas ao redor do Morro ele foi ficando aos poucos relegado aos indivíduos pobres que não tinham outra opção de moradia, passando a ser então mal visto pelas altas camadas sociais, como um sinal de atraso. Desde o século XVIII ele passa a ser ameaçado e os interessados na possibilidade da demolição apresentam diversos argumentos. Foram levados nessa época ao Senado da Câmara relatórios executados por três médicos que diziam que o morro deveria ser demolido pois impedia a circulação dos ventos vindos do mar o que gerava o aumento e a proliferação de doenças. Luiz Edmundo, na obra “O Rio de Janeiro do meu tempo” nos mostra essa solicitação:

Tendo, em 1798, o Senado da Câmara, num inquérito aberto entre os médicos desta cidade, querido saber as causas reais das enfermidades epidêmicas que, havia muito, nos afligiam e preocupavam, teve o Monte esta condenação pelo Dr. Manuel Joaquim Moreira, notável médico na terra: “Eis aqui, novamente os morros sendo causa das moléstias da cidade por concorrerem para o calor do clima; destes, porém, o mais nocivo é o do Castelo, por que é o que obstrui mais a viração do mar, vento o mais constante, mais forte e mais saudável”, sendo que outro médico, também ouvido, Antônio Joaquim de Medeiros, alvitrou que se arrasasse, imediatamente, a montanha (…).”

A abolição da escravidão em 1888 adicionou mais um motivo para os membros da elite desejarem o fim do Castelo, como esta não previu fornecer aos ex-escravos condições mínimas de sobrevivência eles acabaram encontrando nos morros o único local de abrigo perto do centro da cidade, que era o seu principal local de trabalho. Em sua maioria dividiam habitações coletivas, os famosos cortiços, que eram tidos como focos de proliferação de doenças, marginalidade e símbolo do atraso do Rio de Janeiro frente as grandes urbes europeias. O autor Alexsandro Menez diz que “Para a elite da capital, o Morro do Castelo representava todo o atraso, misticismo, fanatismo, miserabilidade, desta inferior população “mestiça” pobre do Brasil”.

Luiz Edmundo ainda no clássico “O Rio de Janeiro do meu tempo” mostra essa contradição sobre o papel que o Morro do Castelo exerce para a cidade, que passa de núcleo fundador a símbolo de atraso:

Foi o Castelo, até bem tarde, até mesmo ao albor do século XIX, morada nobre, pouso de abastados dominando a mais linda paisagem do mundo.”

Um século depois, o morro, entretanto, é um descalabro. Do seu lustre passado já nada mais existe, a não ser algumas construções espessas e sombrias, e a história de tempos que se foram. (…) As casas, em geral, construídas no ‘estilo feio e forte da Colônia’, não têm mais do que um ou dois andares. (…) Por entre todas essas construções, por vezes, surgem barracos de madeira, inúmeros barracos, com coberturas de zinco enferrujado (…)”

Bom, por hoje é só isso!!! Na próxima parte vou falar das mudanças ocorridas com a virada do século XX e do processo de desmonte do Morro. Espero que tenham curtido esse pedacinho da nossa história e qualquer dúvida, crítica ou sugestão só postar nos comentários. Ah, lembrando que a segunda parte desse texto sai na quinta-feira, até lá!!!

Obs.: Irei postar a bibliografia completa ao final das 3 partes dos textos!

Exposição “O Paço, a Praça e o Morro”

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Folder da exposição.

O Rio de Janeiro já foi palco de diversas intervenções urbanas ao longo de sua história, e todas levaram a intensas modificações nas dinâmicas arquitetônicas e sociais da cidade. Sejam as mudanças ocorridas com a vinda da Família Real, que visavam embelezar a cidade para a estada da Corte, as reformas urbanas de Pereira Passos no início do século XX ou as recentes reformas implementadas na gestão do prefeito Eduardo Paes, por ocasião da Copa do Mundo de 2014 e das Olimpíadas de 2016.

E é nesse viés que se encontra a exposição “O Paço, a Praça e o Morro” que apresenta, no Paço Imperial, uma série de fotografias registradas entre o fim do século XIX e a década de 1920, mostrando a evolução da região que foi o local de nascimento da cidade. As imagens mostram a Praça XV, o Paço, as ruas ao redor e até mesmo o extinto Morro do Castelo, tão importante para a fundação da cidade e que foi arrasado em 1928, justamente num contexto de reformas.

Fui visitar a exposição no dia 01 de julho e simplesmente adorei. São quatro salas no total e além das fotos em tamanho original há também algumas ampliadas, máquinas fotográficas antigas e um painel interativo onde é possível ver as fotos em 3D.

“O Paço, a Praça e o Morro” está aberto à visitação de 24 de junho a 28 agosto de 2016, das 12hrs às 19hrs, no Paço Imperial (Praça XV de Novembro, 48) e a entrada é gratuita. Vale lembrar que para quem é estudante de graduação a visita conta como horas complementares.

Para saber mais sobre a exposição visite: http://ims.com.br/ims/explore/acervo/noticias/o-paco-a-praca-o-morro

Para saber mais sobre as reformas urbanas do Rio de Janeiro ver:

Carvalho, Amanda. O Rio de Janeiro a partir da chegada da Corte Portuguesa: Planos, Intenções e Intervenções no século XIX. In: Tempos e escalas da cidade e do urbanismo: Anais do XIII Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. Brasília: Universidade Brasília, 2014.

Monteiro, João Carlos. Transformações e Perspectivas para a Área Central do Rio de Janeiro: A Ação do Poder Público Municipal. In: XIII Encontro da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional. 2009.